Da aspiração não realizada ao trabalho de luto
Uma leitura psicanalítica da curva em U do bem-estar subjetivo
Documento de trabalho — reúne três seções nucleares do manuscrito (eixo causal, genealogia e controvérsias metodológicas) e a lista de referências. Os campos entre colchetes nas referências indicam dados a completar ou padronizar conforme a edição adotada pelo autor.
1. Da aspiração não realizada ao trabalho de luto: o eixo causal
1.1 A aspiração não realizada como ferida do ideal de ego
O mecanismo proposto por Schwandt (2016) tem a virtude de ser, ao mesmo tempo, empiricamente robusto e psicologicamente opaco. Ele demonstra que os jovens superestimam sistematicamente sua satisfação futura, que essa expectativa permanece alta e frustrada ao longo da primeira metade da vida adulta, e que o bem-estar só volta a subir quando — por volta do fim dos cinquenta — as aspirações são abandonadas e as expectativas se realinham à realidade vivida. O que o modelo econômico registra como expectativas não cumpridas a psicanálise pode ler como a vicissitude de uma instância precisa: o ideal de ego. Formado, segundo Freud (1914, 1923), como herdeiro do narcisismo infantil — o resíduo daquela onipotência inaugural que Freud nomeou “Sua Majestade, o Bebê” —, o ideal de ego é a instância que sustenta a promessa de que a distância entre o eu atual e o eu que se deveria ser será um dia suprimida. A juventude vive sob esse regime: o futuro é, estruturalmente, o tempo em que o ideal se realizará. Os jovens de Schwandt que superestimam a felicidade vindoura não cometem um erro de cálculo; eles investem libidinalmente o futuro como o lugar da consumação narcísica.
1.2 A meia-idade como dobradiça temporal
Se a juventude pode sustentar a distância entre eu e ideal de ego sob a forma do “ainda não”, a meia-idade é o ponto em que essa distância se converte em “nunca”. É exatamente aqui que a contribuição fundadora de Jaques (1965) se mostra indispensável e não substituível por nenhuma explicação puramente cognitiva: o que precipita a crise não é a frustração das aspirações em si, mas a entrada da morte própria no horizonte como realidade concreta, e não mais como abstração distante. A finitude reconfigura a aritmética do desejo. Enquanto o tempo restante era percebido como ilimitado, o ideal de ego permanecia uma dívida adiável; quando o tempo se revela contado, a dívida torna-se inadimplente. O nadir da curva em U situa-se na meia-idade, e não antes nem depois, porque é nesse ponto da existência que o futuro deixa de funcionar como reservatório inesgotável das promessas narcísicas. A queda do bem-estar é o preço subjetivo de um investimento que a realidade passa a recusar de modo irreversível. Não por acaso Jaques recolheu a cena em Dante — nel mezzo del cammin —, pois a selva oscura é precisamente a experiência do extravio que sobrevém quando o caminho que se julgava reto, a marcha rumo ao ideal, se descobre perdido.
1.3 O risco melancólico e a bifurcação do trabalho de luto
Aqui a distinção freudiana entre luto e melancolia (Freud, 1917), que Altman (2011) coloca acertadamente como chave de leitura do envelhecimento, torna-se o eixo de toda a interpretação. A persistência da expectativa alta e frustrada que Schwandt documenta no fundo da curva corresponde, em termos metapsicológicos, à manutenção do investimento libidinal num objeto perdido — não uma pessoa, mas o eu-ideal que se deveria ter tornado. Reter esse investimento contra a evidência do real é a posição melancólica: o sujeito não consegue desligar a libido do ideal não alcançado e, por isso, permanece no vale. O ramo descendente da curva é o tempo dessa fixação. A elaboração só se inicia quando o sujeito pode tomar o eu-ideal como objeto efetivamente perdido e empreender, sobre ele, o trabalho de luto — o desligamento lento e custoso que Freud descreve como retirada gradual da libido do objeto, retalho a retalho.
1.4 A renúncia narcísica como condição do ramo ascendente
É nesse ponto que a formulação de Bianchi (1993), recuperada por Altman (2011), oferece a tradução mais exata do que Schwandt observa como “abandono das aspirações”. O envelhecimento, escreve Bianchi, implica um conjunto de renúncias narcísicas que se opõem aos desejos infantis: renunciar ao ser-tudo, ao ser-por-todo-o-tempo, ao ser investido sem obrigação de reciprocidade, ao dispor do objeto amado. O realinhamento das expectativas que a econometria de Schwandt detecta no fim dos cinquenta é, lido por essa lente, a conclusão bem-sucedida do luto do ideal de ego: a libido antes presa à promessa narcísica é desligada e redirecionada. E Bianchi indica para onde ela se desloca — para objetos mais duradouros que o próprio ego: a progênie, as obras, as instituições. O ramo ascendente da curva não é, portanto, mero declínio das ambições nem resignação depressiva; é o dividendo de uma renúncia elaborada. A esse movimento Klein (apud Altman, 2011) acrescenta a dimensão decisiva: a recuperação não é esquecimento, mas reparação. O bem-estar que retorna na segunda metade da vida é uma conquista da posição depressiva — a capacidade de tolerar a ambivalência, restabelecer o objeto interno bom e, como diz Quinodoz (2009), reconstruir a própria história interna em uma história total que pertença ao sujeito.
1.5 O que isso reescreve na curva em U
A consequência teórica é que a curva em U não deve ser lida como o gráfico de uma felicidade que cai e se recupera, mas como a inscrição estatística de um trabalho psíquico: o luto do ideal de ego. O vale mede o custo de um investimento que o real recusa; a subida mede o rendimento da renúncia bem elaborada. Essa releitura produz, ainda, uma hipótese clínica com poder explicativo que o dado agregado, sozinho, não alcança: a curva média recobre, na verdade, duas populações distintas — aquela que consegue fazer o luto do eu-ideal, e por isso ascende, e aquela em que a elaboração fracassa, permanecendo na fixação melancólica que o próprio Blanchflower, em outros trabalhos, nomeia como despair. O U observado seria a resultante dessas duas trajetórias. A média esconde a bifurcação; a psicanálise a torna pensável.
Numa articulação lacaniana — que se sugere apresentar como aprofundamento e não como tese central, dado o rigor que o vocabulário exige —, a ferida da meia-idade situa-se no registro do eu ideal imaginário, a fantasia de completude, enquanto a saída pela renúncia opera no registro simbólico: um novo posicionamento do sujeito diante da falta (manque-à-être) que a promessa de um ideal realizável até então recobria. A recuperação não seria a obtenção tardia do objeto, mas a liberação do desejo da captura imaginária pelo ideal de ego.
Cabe um cuidado epistemológico explícito: a passagem do dado populacional ao trabalho de luto é uma interpretação, não uma demonstração. A psicanálise opera no caso a caso, e a curva de Blanchflower fala de médias entre milhões de sujeitos. O valor do cruzamento não está em provar a metapsicologia com econometria, mas em oferecer à regularidade estatística uma inteligibilidade que ela, por si, não possui — e em devolver à clínica uma hipótese sobre por que alguns atravessam o vale e outros nele se detêm.
2. Genealogia psicanalítica da crise da meia-idade: Jaques entre Dante, Freud e Klein
Antes de ser um achado da economia do bem-estar, a crise da meia-idade foi um conceito da psicanálise. Essa precedência não é um detalhe historiográfico: ela inverte a relação habitual entre o dado e a teoria. A leitura corrente trataria a curva em U de Blanchflower (2021) como o fato a ser explicado e a psicanálise como uma interpretação a posteriori. A genealogia proposta neste capítulo sustenta o contrário — que a regularidade estatística confirmada em 145 países é a ratificação tardia de uma estrutura subjetiva que a psicanálise já havia teorizado, e que a poesia havia intuído seis séculos antes.
2.1 A cena fundadora
O termo midlife crisis foi cunhado por Elliott Jaques e estabelecido em “Death and the mid-life crisis”, publicado no International Journal of Psycho-Analysis em 1965 (traduzido no Brasil como “Morte e crise da meia-idade”). Jaques, analista formado no campo kleiniano e ligado ao Tavistock Institute, apresentara a tese pela primeira vez anos antes, diante da British Psychoanalytical Society — uma plateia que incluía Donald Winnicott e a própria Melanie Klein, sua mentora. A formulação é, declaradamente, freudo-kleiniana: nela convergem a teoria freudiana do luto e a teoria kleiniana da posição depressiva. Este é o primeiro ponto a fixar: a crise da meia-idade não nasce como categoria descritiva de comportamento, mas como acontecimento metapsicológico.
2.2 O argumento de Jaques
Jaques chega ao conceito por uma via que interessa particularmente a uma leitura que queira articular psicanálise e produção literária: o estudo das trajetórias criativas. Examinando a obra de um grande número de artistas, observou que em torno dos 37 anos algo decisivo se altera — para alguns, a criatividade se esgota ou a vida se interrompe; para outros, muda de qualidade. À criatividade jovem, que ele descreve como espontânea e intensa, “quente, saída direto do fogo”, lírica e idealizante, sucede uma criatividade madura, “esculpida”, mais lenta, reflexiva, de tonalidade trágica, capaz de incorporar a imperfeição e a destrutividade em vez de negá-las.
O eixo dessa virada é a entrada em cena da morte própria não mais como abstração, mas como realidade inevitável. É esse encontro que reabre, no meio da vida, o trabalho da posição depressiva: o sujeito é convocado a reconhecer e a elaborar não apenas a finitude, mas a coexistência do amor e do ódio, do bom e do destrutivo dentro de si — a mesma integração que Klein situa na origem do desenvolvimento psíquico, agora reeditada na escala de uma vida inteira. O desfecho bem-sucedido Jaques nomeia, numa expressão precisa, resignação construtiva: não a desistência, mas uma aceitação madura que permite uma criatividade em chave trágica. O fracasso dessa elaboração produz as formas defensivas conhecidas — a fuga maníaca na tentativa de reter a juventude, ou o colapso depressivo.
2.3 O substrato freudiano
A condição de possibilidade da crise está num achado de Freud anterior a Jaques. Em “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), Freud sustenta que, no inconsciente, cada um se crê imortal: a própria morte é, para o inconsciente, irrepresentável. A meia-idade é precisamente o momento em que essa denegação se fratura. O que Schwandt (2016) mede como expectativas que permanecem altas e frustradas, e o que Jaques descreve como confronto com a finitude, têm aqui seu fundamento: enquanto a morte permanece inconscientemente negada, o ideal de ego — herdeiro do narcisismo infantil (Freud, 1914) — conserva sua promessa de realização futura. Quando a negação cede, a promessa torna-se inadimplente, e o que se impõe é o trabalho de luto descrito em “Luto e melancolia” (1917): o desligamento gradual da libido do objeto perdido — aqui, o eu-ideal que não se cumprirá.
2.4 O substrato kleiniano
Klein fornece a Jaques o modelo do que esse luto realiza. Em “O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos” (1940), Klein estabelece que todo luto adulto reativa a posição depressiva infantil: lutar contra a perda é, no fundo, reconstruir o objeto interno bom abalado pela perda. A recuperação que se observa na segunda metade da vida não é, portanto, mero alívio por baixar as expectativas; é reparação — a tolerância da ambivalência, o restabelecimento do objeto bom interno (Klein, 1991), aquilo que Quinodoz (2009) descreve como a reconstrução da história interna numa totalidade que pertence ao sujeito. A renúncia narcísica de que falam Bianchi (1993) e Altman (2011) é o trabalho; a posição depressiva integrada é seu resultado.
2.5 Dante como caso clínico fundador
O traço mais original — e o mais fértil para um trabalho que articule psicanálise e literatura — é que Jaques inscreve sua tese sob a égide de Dante. A Commedia abre-se nel mezzo del cammin di nostra vita, com o poeta aos 35 anos, idade que não é arbitrária: Dante toma como medida o salmo que fixa em setenta anos a duração plena da vida, de modo que 35 é, rigorosamente, o ponto médio — e ele próprio, no Convivio, situa nesse ponto o ápice do arco vital. Há aqui uma ressonância que o capítulo pode explorar com a devida prudência retórica: a curva de Blanchflower, ao restringir a amostra aos menores de 70 anos, opera sobre o mesmo arco que a tradição fixou como a vida plena, e encontra seu nadir justamente em torno da meia-idade dantesca.
A Commedia oferece, assim, mais que uma epígrafe: oferece a forma do próprio itinerário do luto. O Inferno é o descenso ao confronto com a destrutividade e a morte — a selva oscura como a perda do caminho que se julgava reto rumo ao ideal. O Purgatório é o trabalho de luto e de reparação em sentido próprio: as cornijas como purgação progressiva, isto é, como renúncia sucessiva aos investimentos narcísicos. O Paraíso é a integração alcançada, o objeto interno bom restabelecido. As três cânticas desenham, nessa leitura, os três tempos da elaboração depressiva — confronto, reparação, integração. Foi esse texto, lido como paradigma, que Jaques tomou como a primeira descrição clínica da crise da meia-idade e de sua resolução.
2.6 O fechamento do círculo
A genealogia permite então enunciar a tese que dá originalidade ao trabalho: a curva em U de Blanchflower é a sombra estatística de um itinerário que Dante figurou poeticamente por volta de 1300, que Freud e Klein teorizaram como trabalho de luto e posição depressiva, e que Jaques nomeou em 1965. O ramo descendente é o descenso; o ramo ascendente é a reparação. Aquilo que a econometria registra como regularidade entre milhões de sujeitos a psicanálise reconhece como a estrutura de uma travessia singular — e a literatura, antes de ambas, já havia escrito. A genealogia é uma filiação conceitual, não a alegação de que Dante anteviu um resultado econométrico. O que se afirma é mais sóbrio e mais forte: que o fenômeno medido por Blanchflower tem uma inteligibilidade subjetiva que precede largamente sua mensuração, e que essa inteligibilidade foi elaborada, sucessivamente, pela poesia, pela metapsicologia e pela clínica.
3. Controvérsias metodológicas: a disputa sobre a própria curva
Para que a leitura psicanalítica não recaia em ingenuidade positivista, é indispensável que o trabalho reconheça que a existência universal da curva em U é objeto de disputa metodológica ativa entre disciplinas. Blanchflower e Graham (2020) nomearam o embate de modo direto, ao contrapor os economistas que a encontram aos psicólogos que não a encontram. A divergência não é trivial e tem implicações para o argumento aqui defendido.
De um lado, a tradição econômica — Blanchflower e Oswald, e a síntese de Blanchflower (2021) — sustenta que, uma vez introduzidos os controles habituais (escolaridade, estado civil, situação laboral, renda), a curva em U emerge de forma robusta e praticamente universal. De outro, parte da psicologia do desenvolvimento contesta tanto a forma quanto a generalidade do achado. Galambos, Krahn, Johnson e Lachman (2020), revendo a literatura, argumentaram que o suporte ao U não é tão robusto nem tão generalizável quanto se supõe, e que a conclusão de que a felicidade declina da adolescência tardia até a meia-idade seria prematura e possivelmente equivocada. Blanchflower e Graham (2021) replicaram que a maioria dos estudos invocados pelos críticos estaria mal classificada, reafirmando a presença do U na maior parte deles.
A controvérsia tem três focos que o trabalho deve explicitar. O primeiro é metodológico: o U emerge sobretudo de estudos transversais (cross-section) com medidas de item único de satisfação com a vida; os dados longitudinais (painel), quando disponíveis, oferecem confirmação mais parcial, e críticos argumentam que a forma transversal pode confundir efeitos de idade com efeitos de coorte — embora Blanchflower (2021) dedique parte do artigo justamente a afastar a hipótese de que efeitos de coorte dirijam o achado. O segundo foco diz respeito aos controles: a curva com controles responde a uma pergunta diferente da curva sem controles. Ao manter constantes renda, emprego e estado civil, o U com controles isola um efeito de idade depurado das circunstâncias objetivas — o que é precisamente o que interessa a uma leitura psicanalítica, pois sugere um resíduo subjetivo não redutível às condições materiais, mas que também o torna mais abstrato e mais distante da experiência vivida de qualquer sujeito particular. O terceiro foco é amostral: a restrição de Blanchflower aos menores de 70 anos, embora metodologicamente defensável diante das diferenças de expectativa de vida entre países, é consequente — análises que incluem os muito idosos por vezes encontram nova queda do bem-estar na velhice avançada, o que transformaria o U numa forma mais complexa.
Há ainda uma observação contemporânea que o trabalho não deve ignorar: evidências recentes sugerem que os mais jovens vêm se tornando menos felizes do que as coortes anteriores, o que estaria achatando ou deformando o ramo descendente da curva. Se confirmado, esse movimento não invalida a leitura aqui proposta, mas a historiciza: a estrutura subjetiva do luto do ideal de ego permanece, mas as condições sociais que modulam sua intensidade e seu calendário mudam.
É exatamente nesse ponto que a contribuição da psicanálise se mostra mais valiosa, e não mais frágil. A disputa entre economistas e psicólogos opõe duas leituras do agregado — uma que vê o U, outra que não o vê com nitidez. A hipótese desenvolvida nos capítulos anteriores oferece uma terceira via: a curva média recobre populações heterogêneas, e o que a estatística registra como uma forma única é a resultante de trajetórias distintas — as que elaboram o luto do ideal de ego e ascendem, e as que nele fracassam e permanecem no vale. Sob essa hipótese, parte da discordância empírica seria esperada: amostras, períodos e contextos sociais que alterem a proporção entre essas trajetórias alterariam a nitidez do U observado, sem que a estrutura subjetiva subjacente se modificasse. A psicanálise não arbitra a disputa econométrica; ela explica por que a disputa é possível.
Convém, por fim, registrar o limite epistemológico que atravessa todo o trabalho. A psicanálise opera sobre o singular e sobre o sentido; a econometria, sobre o agregado e sobre a regularidade. Nenhuma medida populacional confirma ou refuta uma interpretação metapsicológica, e nenhuma interpretação clínica se valida por correlação estatística. O que se propõe não é uma fusão de métodos, mas um diálogo: oferecer à regularidade medida uma inteligibilidade subjetiva, e devolver à clínica uma pergunta — por que alguns atravessam o vale e outros nele se detêm — que o dado agregado torna visível mas não sabe responder.
Referências
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