Moisés Matospsicanalista Primeira conversa
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ClínicaJul 2026

A cesta e o olhar

Confiança, desempenho e o veredicto do Outro

I. O experimento, com precisão

Convém começar pela procedência exata da cena, já que dela circulam versões deformadas.

O experimento não pertence à literatura científica revisada por pares. Trata-se de uma demonstração produzida para a televisão, exibida na série de divulgação Brain Games, do canal National Geographic, programa dedicado a ilusões perceptivas e experimentos de psicologia apresentados em formato de entretenimento. A especialista que dá enquadramento científico ao segmento é a Dra. Sridevi V. Sarma, engenheira biomédica e neurocientista computacional da Johns Hopkins University, à época professora assistente e integrante do Institute for Computational Medicine. Os episódios da terceira temporada com participação de Sarma começaram a ir ao ar em 2014.

O desenho da demonstração, tal como encenado no programa, foi o seguinte. Dois voluntários participam: uma pessoa que declara não praticar o esporte (em relato do episódio, descrita como farmacêutica) e um jogador profissional de basquete. Estabelece-se primeiro uma linha de base. Cada um executa dez lances livres. A participante iniciante converte nenhum dos dez; o profissional converte nove. Introduzem-se então duas variáveis, a venda nos olhos e uma plateia instruída a fornecer retorno deliberadamente falso. Vendada, a iniciante erra por larga margem, mas a plateia e o apresentador celebram cada arremesso como acerto. Ela passa a acreditar que está pontuando. Instalada a confiança, seu desempenho nas tentativas seguintes melhora em relação à linha de base. Com o profissional, inverte-se o sinal. A plateia lhe devolve silêncio e desaprovação mesmo quando ele acerta, e seu rendimento cai abaixo do próprio patamar inicial.

A conclusão que o programa extrai é direta. Entre uma fase e outra, a habilidade real de nenhum dos dois se alterou. O que variou foi a confiança, conduzida pelo retorno da plateia. Sarma oferece a moldura neurocientífica: o retorno negativo alimenta a autodúvida e o pensamento intrusivo que degradam a execução, ao passo que o reforço positivo produz um efeito de acalmia que libera o sujeito para desempenhar.

Uma ressalva de honestidade intelectual, que o rigor exige e que em nada enfraquece o que interessa adiante. Estamos diante de uma demonstração ilustrativa, com número mínimo de participantes e finalidade pedagógica, não de um ensaio clínico. Os números citados provêm do segmento como foi ao ar, e as reconstituições que dele circulam divergem em detalhes. O valor da cena não está na sua força de prova. Está no que ela torna visível.

E o que ela torna visível é, a rigor, um teorema psicanalítico encenado.

II. O desempenho responde ao Outro, não ao real

Repare no essencial. Em nenhum momento o corpo dos participantes respondeu à realidade da cesta, isto é, ao fato bruto de a bola ter entrado ou não. O corpo obedeceu a um veredicto. O aplauso e a vaia são, antes de serem fatos, palavras. Chegam como significante, vindo de fora, e é a esse significante que a mão do arremessador se ajusta.

A psicanálise dá nome preciso a esse lugar de onde a palavra chega. Lacan formulou que o sujeito se constitui no campo do Outro e que o desejo do homem é o desejo do Outro. O jogador, na cena, não arremessa em direção ao aro. Arremessa em direção ao olhar que dirá se ele vale alguma coisa. A cesta é o pretexto. O endereço verdadeiro do gesto é o juízo alheio.

Aqui a demonstração televisiva coincide com o que a clínica repete há um século. Não há desempenho neutro, executado num vácuo, medido apenas contra a tarefa. Todo ato humano se faz sob um olhar, real ou suposto, e se organiza em função da resposta que espera desse olhar.

III. O olhar que faz existir

Winnicott propôs uma pergunta que ilumina a cena melhor do que qualquer gráfico de rendimento. O que vê o bebê quando olha o rosto da mãe? A resposta dele: o bebê vê a si mesmo. O rosto materno funciona como espelho e devolve ao pequeno uma primeira imagem de quem ele é. Somos vistos antes de sabermos quem somos, e é dessa visão que extraímos o material do qual nos fazemos.

A plateia do experimento operou exatamente como esse rosto. Vista como capaz, a iniciante tornou-se momentaneamente capaz. Visto como quem fracassa, o profissional começou a fracassar. O reconhecimento não veio depois da competência para premiá-la. Veio antes, e a moldou.

Sartre deu a essa experiência sua formulação mais crua em O ser e o nada. Sob o olhar do outro, deixo de ser pura liberdade e me torno um objeto dotado de uma essência que o outro me atribui: eu me torno aquele que erra. A vergonha e o orgulho são os afetos próprios desse ser-visto. O profissional não desmorona por ter perdido técnica. Desmorona porque, sob o olhar hostil, converteu-se numa coisa julgada, cristalizada na figura do incompetente. A vaia não descreveu seu erro. Produziu-o.

IV. A hipnose da massa e o ideal do eu

Falta ainda entender por que uma plateia possui esse poder. Freud o explicou em 1921, em Psicologia das massas e análise do eu. O indivíduo imerso num grupo coloca a massa no lugar de seu ideal do eu, a instância interna a partir da qual ele se avalia e da qual espera amor. A sugestão coletiva funciona à maneira da hipnose. Quem se entrega a ela cede a outrem o comando sobre o próprio valor.

É precisamente o que a cena mostra. A plateia ocupou o lugar do ideal do eu dos dois arremessadores e passou a ditar, a cada gesto, quanto ele valia. A iniciante tomou emprestada uma confiança que não era sua, e por isso mesmo a exibiu com desenvoltura. O profissional perdeu uma confiança que o olhar lhe retirou, embora sua perícia continuasse intacta em seus músculos. Nenhum dos dois foi senhor do próprio desempenho. Ambos arremessaram a partir do veredicto que a massa lhes emprestava.

V. O sujeito suposto julgar

Na clínica, chamamos transferência ao fenômeno pelo qual o sujeito supõe no Outro um saber e organiza sua fala e seu ato em torno dessa suposição. No consultório, supõe-se um saber sobre a verdade. Na cena que examinamos, supõe-se um saber sobre o próprio valor.

O executivo diante do conselho, o fundador diante do mercado, o herdeiro diante do fundador que o antecedeu, o analisando diante do analista: cada um arremessa em direção a um olhar que supõe conhecer a sentença. É essa a raiz do fenômeno do impostor, que tantos líderes competentes carregam em silêncio. A perícia é real, os resultados são reais, e ainda assim o sujeito permanece refém do juízo externo porque não construiu, dentro de si, um apoio que dispense o veredicto. Sua liderança, por sólida que pareça, repousa sobre o aplauso, e é tão frágil quanto o aplauso.

Há aqui uma advertência clínica precisa para quem exerce autoridade. Uma identidade profissional inteiramente sustentada pelo reconhecimento alheio partilha da natureza do reconhecimento alheio, que é volátil, interessado e reversível. O líder que só existe enquanto ovacionado deixa de existir no instante em que a plateia se cala. E a plateia sempre acaba por se calar.

VI. A venda como boa metáfora

Vale reparar no artifício central da demonstração. A venda retirou dos participantes a visão da cesta e os entregou, sem mediação, à palavra da plateia. Privados do real, restou-lhes apenas o veredicto do Outro, e a ele obedeceram inteiramente.

A pesquisa sobre lances livres sugere um caminho inverso, que serve de metáfora fértil. Atletas treinados a sentir o arremesso a partir do próprio corpo, por via proprioceptiva, em vez de prever seu êxito a partir de sinais externos, ganham em regulação do gesto. Há algo de análogo no trabalho analítico. A análise não visa garantir ao sujeito mais aplauso, nem blindá-lo contra a vaia. Visa afrouxar sua dependência do olhar, para que seu ato encontre um apoio interno, uma relação com o próprio desejo que não precise do veredicto para existir.

Não se trata de abolir o Outro, o que seria impossível e, no limite, psicótico. Trata-se de ocupar diante dele uma posição diferente. Agir menos a partir da demanda de reconhecimento e mais a partir de um desejo capaz de suportar um erro sem se dissolver. O sujeito que atravessou esse trabalho ainda ouve o aplauso e ainda sente a vaia, porém já não arremessa para eles.

A cesta, afinal, nunca foi a questão. A questão sempre foi o olhar. E a tarefa, clínica ou simplesmente existencial, consiste em deixar de arremessar em direção ao aplauso.

Referências

BRAIN GAMES. Segmento sobre confiança e reforço, 3ª temporada. Estados Unidos: National Geographic, 2014. Participação de Sridevi V. Sarma (Johns Hopkins University). Programa de televisão.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Publicação original de 1921.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Seminário de 1964.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Publicação original de 1943. Ver, em particular, a seção sobre o olhar.

WINNICOTT, Donald W. O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In: O brincar e a realidade. Publicação original de 1971.

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